Grupo de Política Internacional

Europa das Ideias
18
Abr 09

É curioso que, de entre todas as passagens da obra Jogos Africanos de Jaime Nogueira Pinto que mais recordo, se encontre esta: “Mas os retornados reintegravam-se e Mário Soares e o centrão convenciam o país de que a UE era a nova Índia” (p. 80).

Nogueira Pinto é um académico atípico em Portugal e na Europa. Um storyteller de matriz anglo-saxónica que, não deixa, porém, de tell it like it is. E, de facto, no momento da transição democrática portuguesa, enquanto alguns, dedicavam as suas “excitações juvenis” a sonhos de solidariedade totalitária, outros viam a Europa – e o projecto comunitário – como a solução para a adscrição de Portugal a um cosmopolitismo e a uma “continentalidade” que sempre lhes escapou.
Para estes, na Europa e no sonho comunitário Portugal se apartaria, definitivamente do isolamento internacional – auto-imposto e, posteriormente, imposto – do Estado Novo e perderia a sua ancestral natureza periférica e insistente ruralidade. Na ingenuidade destes anos, Portugal nas comunidades europeias, substituiria “um Salazar em cada esquina” por um Olof Palme em cada esplanada. A Europa era um sonho, uma meta, uma solução e uma urgência para a própria sobrevivência do regime.
Com o passar dos anos, estes castelos no ar acerca de um Portugal, enfim, Europeu, sofreram mutações e, gradualmente, transitaram de meta para iminência, certeza e finalmente, para realidade tida como adquirida.  
Hoje, quase três décadas após a adesão portuguesa, a própria projecção nacional junto do edifício comunitário sofreu mutações para passar a incluir, por exemplo, a muito presente consciência de que o elemento diferenciador de Portugal se encontrará, não na tentativa de replicar Dusseldorf na Amadora, mas em trazer a jogo o passado histórico nacional como um projecto, se bem que não cosmopolita, mas ainda assim global.
Tal não significa que a nossa geração tenha deixado de sonhar com a Europa. O que mudou foi a proximidade e a probabilidade de concretização de tais sonhos. Indispensáveis momentos biográficos, como a condição de estudante Erasmus, por exemplo, muito ajudaram à remoção da névoa que acompanhava os iniciais sonhos europeus dos portugueses.
Hoje, um cidadão português pensa na Europa de forma inata e quase inconsciente. Mentalmente, Paris é quase tão perto de Lisboa como Chaves, coleccionam-se amigos em Bratislava e enviam-se currículos e cartas de apresentação sinceras para e-mails com terminações como .pl, .ie , ou mesmo .eu.

Na verdade, Portugal não deixou de sonhar com a Europa, passou foi a sonhar como Europeu.

publicado por André Pires às 02:30

comentário:
A Europa é um sonho para alguns; sobretudo para aqueles que querem ser eurodeputados ou funcionários dos gabinetes comunitários. Por isto, empenham-se tanto nas ideias de circunstância, em apoio das suas "damas", melhor posicionadas para lá chegar, num complexo jogo de influências!
Neste contexto, a Europa tem sido um "eldorado" para alguns, a avaliar pelas regalias salariais e sociais, em vigor para os chamados funcionários europeus, que contrastam bem com a média salarial do resto dos cidadãos.
A Europa que queríamos, passou-nos ao lado, porque não faltaram gananciosos, a apoderarem-se do nosso melhor sonho de um novo mundo, para transformá-lo num pesadelo de dívida pública galopante, de discriminação de privilégios e formação de novas burguesias corruptas!
A Europa de todos passa por ter Justiça social, em vez de Lei; passa por distribuir a riqueza, proporcionalmente pelo esforço de cada cidadão; passa por conter os egoísmos individuais e das classes; passa por basear a seriedade e honestidade nas relações sociais, quer sejam negociais, laborais ou políticas!
Se a escolha for construir a Europa nos velhos primados senhoriais, nos velhos sonhos de imperialismo das vontades dos mais fortes, e no produto da mentalidade humana selvagem, de competição intra-específica, ou seja, se resultar da maquilhagem da velha senhora, então será desagregada, juntamente com o ocaso desta civilização ocidental! Lembro, a propósito dos ocasos civilizacionais, que já muitos se produziram, sempre da mesma forma; pelo autismo dos dirigentes e pelos excessos de acumulação do velhinho sistema capitalista, de que ninguém abdica, por dar imenso jeito à conveniência de grandeza e riqueza de cada um! Lembrem-se que, para alguns serem ricos, outros têm de ser pobres, uma vez que a riqueza terrestre disponível é finita. Quanto maior for a ganância de uns poucos, maior será a pobreza da generalidade dos cidadãos; mas estes, à medida que aumentam a sua cultura e informação, acabam por produzir a revolta destruidora, como aconteceu com a civilização Maia, e com outras...as crises económicas são devastadoras, quando resultam do excesso de exploração dos mais pobres; claro que não são os mais pobres que lutarão, dado já estarem habituados a serem espezinhados, mas serão os que outrora pertenceram à classe média, e estão agora irremediavelmente arredados do conforto antigo, na sequência, também, da competição intra-associativa, que os impediu de merecerem o seu lugar, em função das suas capacidades intelectuais! Como sabemos, os melhores não ocupam os papeis de alta responsabilidade, mas sim ocupam os que melhor se prostituem aos que dominam o sistema social! Neste sentido, também não temos uma Europa de cidadãos livres!
politicacorrecta a 20 de Abril de 2009 às 13:28

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